Há 98 anos nascia a III Internacional

Lenin discursa aos delegados do III Congresso Mundial da Internacional Comunista_ Kremlin Moscou 22 de junho 1921

António Barata

De 2 a 6 de Março de 1919, realizou-se em Moscovo o congresso fundador da III Internacional Comunista, acontecimento decorrente tanto da cisão havida na II Internacional – provocada pela deriva dos partidos social-democratas para o nacional-chauvinismo que, com o início da Primeira Guerra Mundial, se colocaram ao lado das respectivas burguesias na “defesa da pátria” e contra o internacionalismo proletário – como da conjuntura internacional e do entusiasmo suscitado pela revolução soviética.

A TRAIÇÃO DA II INTERNACIONAL

A atitude dos comunistas face à primeira grande guerra imperialista que se avizinhava começou a ser debatida em 1907, no congresso da II Internacional de Estocolmo. O debate prossegue em 1912, tendo o Congresso de Basileia publicado um manifesto de cariz pacifista que procura conciliar as posições em confronto – de um lado, a minoria existente em vários partidos europeus, que tem em Lenine, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht os defensores mais destacados, que defende a sabotagem do esforço de guerra pelos comunistas, nos seus países, contra as respectivas burguesias, e a transformação da guerra imperialista em guerra civil revolucionária aproveitando o facto das classes dominantes dos países em guerra estarem enfraquecidas por esta; do outro, a maioria encabeçada por Kautsky, defendendo uma postura pacifista e patriótica, de defesa do “interesse nacional”, por considerar que não haviam condições para e fazer a revolução.

Lenine referia-se à guerra mundial nestes termos, em artigo publicado em Novembro de 1914:
“o único conteúdo real, o significado e o sentido da guerra presente é o de anexar terras e subjugar outras nações, arruinar a nação concorrente, saquear as suas riquezas, desviar a atenção das massas trabalhadoras das crises políticas internas da Rússia, Alemanha, Inglaterra e demais países, desunir e confundir os operários com propaganda nacionalista e exterminar a sua vanguarda para debilitar o movimento revolucionário do proletariado (Lenine, tomo V).

Com o chauvinismo a dominar os partidos social-democratas, às minorias não vai restar outro caminho que não seja o da cisão com o oportunismo nacionalista dominante. A ruptura dá-se, Lenine rompe com o Partido Operário Social-Democrata Russo, o mesmo acontecendo na Alemanha e outros países, onde se constituem pequenos grupos e partidos defensores da sabotagem da guerra, advogando a derrota das suas burguesias e a revolução a curto prazo. Impregnada de nacionalismo, a II Internacional definhará rapidamente, sendo dissolvida em 1916.

Assim, de 5 a 8 de Setembro de 1915, já em plena guerra mundial, reúnem-se em Zimmerwald, Suíça, 38 delegados de 11 países (Alemanha, França, Itália, Rússia, Holanda, Suécia, Polónia, Bulgária, Suíça, Roménia e Noruega). A conferência tem como ponto de partida o desacordo com o Manifesto de Basileia e reúne facções, partidos e organizações opositoras à guerra, de dentro e fora da II Internacional. E voltam a confrontar-se duas tendências:
– a Internacionalista Revolucionária, à esquerda, alcunhada de “derrotista” por advogar a derrota da sua classe dominante e do seu país na guerra, defende a coordenação de esforços no sentido de converter a guerra imperialista, entre nações, em guerra civil revolucionária para a tomada do poder pelos trabalhadores (como aconteceu na Rússia);
– a Centrista, defendendo a reconstituição da II Internacional e a luta pela paz.

Esgotado este último esforço de entendimento entre as correntes marxistas oriundas da II Internacional, a Lenine e à ala esquerda revolucionária começa a colocar-se a necessidade da criação de uma outra organização internacionalista capaz de organizar a revolução nos países mais desenvolvidos da Europa, os elos mais fracos do capitalismo.

A REVOLUÇÃO NA ORDEM DO DIA

Com as burguesias europeias enfraquecidas pela guerra e acossadas pelos vários levantamentos e tentativas de tomada do poder pelo proletariado, galvanizado pela revolução soviética, principalmente na Alemanha e na Hungria, a IC adoptou um programa de reorganização do movimento comunista e de tomada do poder a curto prazo nos principais países capitalista europeus avançados. À corrente comunista revolucionária corporizada na IC, colocava-se na altura a tarefa de estabelecer os princípios organizativos (as 21 condições estabelecidas por proposta de Lenine em 1920, no II Congresso) capazes de garantirem que a tendência que então se verificava, de adesão de muitos dirigentes e militantes social-democratas à terceira Internacional, não provocasse a contaminação desta pelas práticas reformistas e oportunistas transportadas por estes novos aderentes, e de aproveitar a conjuntura extraordinária criada pela guerra mundial – desorganização económica, estruturas produtivas destruídas, caos político e administrativo, debilidade militar e repressiva, fome e doença generalizada, ódio popular à guerra e aos governos que tinham conduzido milhões de homens para uma carnificina gigantesca e inútil, etc. – para derrubar o capitalismo na Europa, na Alemanha em primeiro lugar. Os três primeiros congressos colocam a tónica na tomada do poder pelo proletariado a curto prazo, detalhando as medidas imediatas a tomar pelos governos revolucionários de expropriação económica e condicionamento político da burguesia (a fracassada revolução húngara é apontada como exemplo daquilo que não se deve fazer).

O DESCALABRO DA III INTERNACIONAL

Com a derrota da revolução alemã, em 1921, as burguesias europeias passam à ofensiva, entreajudam-se, reforçam-se, recorrem ao terror fascista e contêm a ameaça da revolução comunista. Bloqueada esta, a IC vai atravessar um período de desorientação política, de constantes guinadas à esquerda e à direita, incapaz de contrariar a sua contaminação crescente pela social-democracia (na China, a aliança com a burguesia nacional proposta pela IC, na altura dirigida por Bukarine, levará ao massacre de milhares de comunistas e à quase liquidação do Partido Comunista; na Alemanha, a linha de “classe contra classe” que colocava no eixo central a luta contra a social-democracia, apelidada de “social-fascismo”, e a constituição da frente única operária, deparar-se-á com a resistência crescente dos militantes comunistas), irá mais tarde concluir que os elos fracos do capitalismo se deslocaram dos países desenvolvidos da Europa para as nações colonizadas e dependentes da Ásia, e adoptará uma política de entendimento com a social-democracia (acreditando num ascenso revolucionário desta) que ia até à fusão dos partidos comunistas com os social-democratas, abandono da linha de Classe contra Classe e da frente única operária a favor das Frentes Populares Antifascistas, consagradas oficialmente com a aprovação das teses de Dimitrov, no VII Congresso da IC, em 1935 – subordinação dos interesses da classe operária aos da pequena e média burguesia; abandono da luta pela hegemonia política do proletariado nas lutas de classes; colocar no centro da acção política a conquista de posições no aparelho burguês, por via eleitoral, privilegiando a luta parlamentar em detrimento da luta de massas; substituição da unidade na acção por uma ilusória unidade política do proletariado, desistindo de qualquer revolução. Percorreu-se um caminho que vai do período áureo das frentes populares até à sua dissolução em 1943, a que se seguirá a natural domesticação e integração dos partidos comunistas no sistema burguês após a Segunda Guerra.

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