A alegria da destruição

Russian Women Workers in Red Square

Ana Barradas

«As mães de família, cansadas das intermináveis bichas nas lojas, desesperadas por verem os filhos doentes e meios mortos de fome, talvez estejam hoje mais próximas da revolução do que os chefes da oposição liberal e, como é evidente, constituem um perigo bastante maior, porque são a matéria combustível que só precisará de uma leve centelha para se incendiar.»
Estas as apreensões reveladas por um relatório da polícia czarista em Janeiro de 1917.

As “forças da ordem” não se enganavam. Quando o governo russo decretou, no mês seguinte, o racionamento do pão, muitas das mulheres que em Petrogrado faziam bicha para o comprar, após doze horas de trabalho diário nas fábricas, já não continham a exasperação. O Dia Internacional da Mulher, que no Ocidente se celebrava a 8 de Março, calhava a 23 de Fevereiro na Rússia, segundo o calendário ortodoxo. Dez mil mulheres, sobretudo operárias têxteis, marcharam sobre o centro de Petrogrado, empunhando faixas vermelhas em que se lia «Abaixo a Autocracia», «Abaixo a Guerra», «Queremos os Nossos Maridos de Regresso da Frente» e «Pão e Paz». Entretanto, tinham enviado delegadas a falar com os metalúrgicos, para lhes pedir que apoiassem a greve. Depressa se lhes juntaram muitos outros trabalhadores. Nas palavras de Trotsky «a ninguém teria ocorrido, nas vésperas, que esse ‘dia da mulher’ pudesse inaugurar a revolução», «o início da ofensiva decisiva contra o absolutismo».

Alexandra Rodionova, então com 22 anos, foi uma das que participaram nos tumultos. Começara a trabalhar aos 12 anos e, por causa da guerra, passara a conduzir eléctricos. Mais tarde contou: «Lembro-me de como desfilámos pela cidade. As ruas abarrotavam de gente. Os eléctricos não circulavam, e havia carruagens viradas, atravessadas nos carris. Na altura eu não percebia, não compreendia o que se estava a passar. Gritava, como todos os outros: ‘Abaixo o czar!’, mas quando pensava ‘E como vai ser sem o czar?’, Era como se se abrisse diante de mim um poço sem fundo e sentia-me desfalecer. Mesmo assim, não parava de gritar: ‘Abaixo o czar!’. Percebia que a minha vida de todos os dias se estava a desmoronar, mas alegrava-me com essa destruição.»

Quando os revolucionários se aperceberam do ímpeto do movimento, aderiram à greve geral que, no entanto, não estivera nos planos de nenhum dos partidos. No dia 26, já havia 200 mil grevistas, 10 por cento da população da capital. Rodionova foi eleita para a comissão de trabalhadores dos eléctricos da cidade.

Entretanto, a czarina Alexandra escrevia uma carta a Nicolau II, na altura na frente de batalha: «Vêem-se jovens a correr pelas ruas e a gritar que não há pão, só para criarem agitação, além de que há operários que impedem os outros de trabalhar. Se estivesse frio a sério, de certeza que se deixavam ficar em casa.»

O czar deu logo ordens para atirar sobre os desordeiros. Só que os soldados recusaram- se a tal. Os manifestantes conseguiram entender-se com os cossacos e neutralizar a polícia, apesar de várias cargas e escaramuças. O comandante da guarnição militar de Petrogrado, que era menos pateta que os Romanov, comentou mais tarde: “Quando as mulheres gritavam ‘Dêem-nos pão!’, dávamos-lhes pão e a coisa ficava por ali. Mas quando as faixas diziam ‘Abaixo a autocracia!’, que podíamos fazer para as acalmar?»

A revolução alastrou a Moscovo e a outras cidades e, passados dias, o czar abdicou.

O LUGAR DA MULHER

Em fim de Março, quarenta mil mulheres de Petrogrado manifestaram-se reclamando o direito de voto e ostentando faixas que diziam «O lugar da mulher… é na Constituinte». Tinham participado em todas as lutas que alvoroçavam a Rússia e sentiam-se com direitos políticos. Já não lhes bastava o pão, queriam tudo.

De Zurique, Lenine, ao referir-se, a 24 de Março, à necessidade de os comunistas criarem uma milícia popular que se opusesse ao poder burguês, escrevia: «É impossível assegurar a verdadeira liberdade, é mesmo impossível construir a democracia, e ainda mais o socialismo, sem a participação das mulheres nas funções públicas, na milícia, na vida política, sem as arrancar ao ambiente embrutecedor da lida da casa e da cozinha.»

Em Abril; 100.000 mulheres de soldados manifestaram-se reclamando maiores apoios financeiros, pão e paz e formaram uma comissão de luta com 35 membros.

Nessa altura, a força do movimento feminista já se revelara tão grande, que todos os partidos se esforçavam por.conquistar o seu apoio. Elegiam inclusivamente mulheres para os seus órgãos de direcção. O próprio governo provisório tinha duas mulheres e, nos círculos de Moscovo e Petrogrado, foram eleitas várias para o parlamento. Em Julho, a Rússia tornou-se o terceiro país europeu, a seguir à Suécia e Noruega, a reconhecer o direito de voto às mulheres.

Em Outubro, foram muitas as mulheres armadas que se puseram ao lado dos bolcheviques. A mesma Alexandra Rodionova de que já falámos foi nomeada para assegurar a circulação de todos os eléctricos da cidade nas noites cruciais do assalto comunista. Armada de pistola, montou metralhadoras em dois vagões-plataforma para apoiar os recontros de rua.

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