Corações batendo pela liberdade

Há 146 anos, a 18 de Março

comuna

Ana Barradas

Às vésperas das revoluções, as mulheres mais exploradas são as primeiras a desencadear acções de rua espontâneas por não tolerarem mais condições de vida muito duras. Estes actos de revolta acabam por desencadear outros mais amplos, todos eles desembocando às vezes na insurreição aberta.

Foi o que aconteceu nos primeiros dias da Revolução Francesa, quando umas centenas de mulheres se manifestaram em frente ao palácio de Versalhes exigindo pão. E foi também com o que se passou na Comuna de Paris, passados mais de 80 anos. Em ambos casos, não sendo as mulheres exploradas a determinar a sequência dos actos revolucionários, a iniciativa delas foi contudo determinante para animar o resto da população a vir para a rua. Veremos o mesmo fenómeno na Revolução Russa, 46 anos após a Comuna de Paris.

Com efeito, desde os primeiros dias da insurreição da Comuna de Paris, iniciada a 18 de Março de 1871, grandes grupos de mulheres e crianças cercaram os soldados das tropas do governo, embaraçando- lhes os movimentos e incitando-os a revoltarem-se contra os superiores, que se preparavam para capitular perante a Prússia. Chegaram até a convencê-los a prender um dos generais. “Fizemos muito mal em permitir a essa gente que se aproximasse dos nossos soldados”, comentou outro general. Entretanto, Paris festejava a proclamação da Comuna.

As primeiras medidas do novo governo popular foram simples: suspensão dos juros sobre os objectos penhorados e ajustamento das rendas de casa. As mulheres exultaram: nada lhes podia inspirar mais confiança, porque viam assim aliviadas duas das principais cargas económicas que pesavam sobre as suas famílias.

Havia na altura em Paris 112.000 operárias: 60.000 trabalhavam na costura, com jornadas de 13 horas; 6000 fabricavam flores artificiais. Mal conseguiam subsistir, porque as rendas de casa e a alimentação aumentavam, mas os salários não. Foram as terríveis condições da sua existência que natu­ralmente as impeliram para o lado dos insurrectos.

AS MULHERES APOIAM A COMUNA

Quando, a 2 de Abril, as tropas do rei atacaram a Comuna, as mulheres desceram em massa às ruas e quiseram marchar sobre Versalhes. Impedidas pela Guarda Nacional, nos dois dias seguintes desfilaram por Paris, apelando às armas e erguendo barricadas.

O exército dos insurrectos começou a registar pesadas baixas. Nesse mesmo dia, a Comuna assumia a responsabilidade pelas famílias “dos cidadãos que sucumbiram ou sucumbirão ao rechaçarem a agres­são dos realistas conjurados contra Paris”. A 11 de Abril, a Comissão Executiva tomou a decisão que mais tocou as mulheres: um decreto que previa uma pensão para a mulher, casada ou não, de qualquer guarda nacional morto em combate e para os filhos de ambos, perfilhados ou não. Reconhecia-se indirectamente a união livre, prática da esmagadora maioria dos casais populares.

Entretanto, para ajudar os insurrectos, as vendedeiras do mercado de Les Halles levantaram, em meio dia, uma barricada de vinte metros de comprimento; outras populares vigiaram as portas da cidade e executaram mil e uma tarefas auxiliares. Para assegurar a subsistência, cada vez mais difi­cultada, organizaram oficinas cooperativas para angariação e distribuição de trabalho, refeitórios e serviços de assistência pública que se ocupavam dos feridos, dos indigentes e das famílias mais neces­sitadas.

A participação das mulheres era também política. Muitas aderiram aos clubes revolucionários. Assistiu-se à fundação de clubes espe­cificamente femininos, como a União das Mulheres para a Defesa de Paris e Cuidados aos Feridos ou o Club de la Boule Noire, que militava pela criação de escolas profissionais femininas, pela abolição da prostituição e pelos direitos das mulheres. Entre esses direitos, o  trabalho nocturno foi abolido, como foram proibidos os descontos nos salários, as jornadas de trabalho foram reduzidas e começou a difundir-se a ideia das oito horas por dia, casas vazias foram ocupadas, instituiu-se a igualdade entre sexos, o casamento foi simplificado e tornou-se gratuito, as escolas passaram a ser mistas, a educação tornou-se gratuita, laica e compulsória, etc.

SEM DESFALECIMENTOS DE CORAGEM

A Comuna de Paris decretou a abolição do alistamento obrigatório, determinou que a guarda nacional era a única força militar permitida em Paris e todos os cidadãos válidos passavam a fazer parte da guarda nacional. Mais de mil mulheres de guardas nacionais, conquistadas, como os maridos, para a causa da Comuna, trabalharam nas ambulâncias, apesar da oposição dos oficiais e dos médicos. As cantineiras que prestavam serviço nas fileiras destes revoltosos também pegaram em armas. Chegaram a oferecer-se para ir buscar feridos, em condições perigosas. São muitos os nomes de mulheres que figuram entre os mortos em combate.

A cada dia que passava, aumentava o número de mulheres na rua, animadas pelas primeiras vitórias dos revolucionários. Esta adesão entusiástica era o sinal visível de que as forças da ordem perdiam o domínio da situação e que o sistema entrava em ruptura.

O espírito revolucionário das massas em revolta contagiou outras mulheres de várias origens, que viam nos acontecimentos uma oportunidade de expressar pela primeira vez as suas reivindicações e sentimentos mais profundos. Alguns deles bastante truculentos, como um apelo às armas do Clube das Mulheres Patriotas, que proclamava: “Os homens são cobardes; dizem que são os senhores da criação, mas não passam de imbecis”.

As professoras primárias destacaram-se graças à acção decidida da sua colega revolucionária Louise Michel. Na véspera da entrada das tropas gover­namentais em Paris, a Comissão de Educação da Comuna ainda teve tempo de aprovar o aumento dos salários das professoras. Decretou que eles seriam iguais aos dos colegas, “visto que as necessidades da vida são tão imperiosas para as mulheres como para os homens e, no que diz respeito à educação, o trabalho das mulheres é igual ao dos homens”.

Entretanto, a propaganda reaccionária via nessa adesão feminina aos ideais da Comuna um dos alvos preferenciais dos seus ataques. Diabolizavam as mulheres e criavam mitos à sua volta: atribuíam-lhes a autoria de todos os fogos e referiam a suposta existência de um exército de “petroleiras” incendiárias; chamavam-lhes vitrioletistes, alegando que muitas tinham por missão desfigurar os oficiais e os soldados das forças da ordem atirando-lhes vitríolo à cara.

Referindo-se aos últimos dias de combates, antes do esmagamento final da Comuna, Louise Michel comentou nas suas Memórias, a propósito do ardor da luta feminina: “Os nossos amigos homens são mais atreitos a desfalecimentos de coragem que nós, as mulheres. Durante a Semana Sangrenta, foram as mulheres que levantaram e defenderam a barricada da Place Blanche – e mantiveram-na até à morte”.

O massacre destas 120 combatentes calou fundo. Pela primeira vez, os homens começaram a olhá-las como iguais e companheiras. Percebeu-se que a participação feminina é indispensável para o triunfo da revolução. Quase cem anos depois da Revolução Francesa, elas reentravam com vigor renovado na política.

A SEMENTE ESTAVA LANÇADA

Em Maio, a Comuna de Paris foi derrotada. Mantivera-se durante setenta e dois dias. Na terrível repressão que se seguiu, morreram na rua milhares de mulheres às mãos das tropas realistas. Naqueles primeiros dias, bastava uma mulher ter um ar pobre e andar com uma garrafa na mão, nem que fosse de leite, para ser classificada “petroleira” e executada ali mesmo.

Sufocada a resistência, os tribunais burgueses sentenciaram 1051 mulheres; dessas, 756 eram operárias e 157 foram condenadas à morte (além de 6 crianças).

Mesmo na desgraça, muitas nunca perderam o ânimo. Marie Augustine, lavadeira que chegou a ser capitoa da Guarda Nacional e que se distinguiu pela forma como incitou os homens a lutar durante a Semana Sangrenta, gritou aos juízes, antes de ser sentenciada a 20 anos de trabalhos forçados: “Desafio-vos a condenarem-me à morte! Sois dema­siado cobardes para me matardes.” Louise Michel recusou advogado de defesa e dirigiu-se ao tribunal dizendo: “Pertenço por inteiro à revolução social e declaro aceitar toda a responsabilidade dos meus actos. O que reclamo de vós é que me deis, como meus juízes, o campo de Satory [campo de fusilamentos], onde já tombaram muitos dos meus irmãos. Já que, segundo parece, todos os corações que batem pela liberdade só têm direito a um pouco de chumbo, reclamo a minha parte. Se me deixardes viver, nunca cessarei de clamar vingança e denunciarei os assassinos à vingança dos meus irmãos”. Florence Wandeval, operária de 23 anos que servira como cantineira num batalhão revolucionário, gritou diante dos juízes: “Limitei-me a deitar fogo às estuporadas Tulherias [residência real]. Agora pode vir um rei, que vai encontrar o palácio reduzido a cinzas. E a partir de hoje, muitos outros vão arder!”

Depois da derrota dos revo­lucionários, acentuou-se a exclusão das mulheres da vida pública. Contudo, a semente estava lançada. Em 1885, a incansável Louise Michel, regressada do exílio na Nova Caledónia, declarava: “O homem também sofre nesta sociedade, mas nenhuma tristeza é comparável à da mulher. (…) Sabemos quais são os nossos direitos e reclamamo-los. Não estamos a vosso lado, lutando no combate supremo? Vós, homens, não sois sufi­cientemente fortes para incluirdes nesse combate supremo a luta pelos direitos das mulheres? Depois, homens e mulheres, juntos, conquistarão os direitos de toda a humanidade. (…) Quando for a Revolução, vós, eu e toda a humanidade transformar-nos-emos. Tudo se modificará e tempos melhores virão, com alegrias que as pessoas de hoje não são capazes de imaginar. Depois da nossa época atormentada, virá o tempo em que homens e mulheres caminharão juntos pela vida fora, como bons companheiros, e será posta de parte a discussão sobre qual dos sexos é mais forte ou qual das raças do mundo prevalece sobre as outras”.

Esse tempo ainda não chegou. Mas as mulheres da Comuna de Paris ousaram sonhar e contribuíram assim poderosamente para aproximar um pouco mais de todos nós essa nova época.

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