Aprender a sobreviver no deserto

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Ana Barradas

Nos nossos dias, muitos aqueles que se designam a si próprios como marxistas-leninistas ou comunistas alinham com forças reformistas sem se porem questões sobre os resultados e estratégicos dessas alianças.

Acham graça a todas as inovações pseudomarxistas que puxam a classe operária mais para baixo e a pequena burguesia mais para cima. Alinham com a domesticação e institucionalização das organizações operárias, sem se indignaram com a sua criminalização e submissão à legislação capitalista que os sindicatos reformistas procuram dirimir, em vão. As “luminárias” marxistas dos dias de hoje desconhecem ou não se interessam pelas lutas nas fábricas, reduzidas à sua ínfima expressão pelo isolamento em que foram deixadas cair.

Esses pseudomarxistas pensam que os trabalhadores da produção, os proletários, já não são a classe a quem verdadeiramente interessa a revolução, a única que pode dirigi-la, e vêem nela sinais de  aburguesamento, de iliteracia política, de afastamento das doutrinas que os intelectuais – sem nunca terem trabalhado na fábrica – hoje fabricam e que querem ver adoptadas pela massas dos trabalhadores, sem distinção de classe, para assim os “reeducar” para a sua estratégica anti-revolucionária. Dizem: “O operariado está adormecido, não tem consciência de classe, não quer a revolução, não há maneira de o acordar.”

Esquecem-se esses doutrinários que a obrigação de qualquer revolucionário esclarecido é precisamente centrar a acção e o pensamento nas dificuldades da massa proletária alienada pelo capitalismo e contribuir para ela se elevar acima da submissão ao sistema económico que a explora.

O COMUNISMO VAI ACABAR?

Depois há os que resistem e não se rendem, os últimos mohicanos do comunismo, tribo em extinção que cada vez mais encontra dificuldade em se afirmar.

O comunismo não vai acabar, mas está moribundo. A esmagadora maioria dos “velhos” abandonou a luta durante estes últimos anos de reacção. Contam-se pelos dedos da mão aqueles que procuram linhas de demarcação política, definição de ideias, planos estratégicos. Os jovens não sentem o poder de atracção do marxismo e da luta pela revolução, não há passagem de testemunho para a geração mais nova. Fica sem futuro uma teoria, por mais bela que seja, que não encontra a sua aplicação e rejuvenescimento na prática da luta anticapitalista da classe operária para impor a sua ditadura sobre os exploradores. Corremos esse risco de ver submergir todo o património de quase 150 anos. A ideia comunista poderá emergir de novo mais tarde, mas hoje está desaparecendo. Não ajuda a ninguém fechar os olhos, ignorar a gravidade dos factos e procurar falsas alianças com parceiros reformistas.

Apesar de todos os defeitos que se podem apontar aos partidos comunistas antes de 1935, a verdade é que eles esforçavam-se por educar para o comunismo os operários mais valorosos na luta anticapitalista a fim de os chamar à liderança como os mais aptos para a exercerem. A regra da maioria operária nos órgãos de direcção, instituída pela III Internacional ainda no tempo de Lenine, era mesmo para cumprir. Foi assim que no Partido Comunista Português se destacaram dirigentes como o metalúrgico e secretário-geral Bento Gonçalves nos anos 20-30; o operário vidreiro José Gregório, que teve um papel decisivo na revolta da Marinha Grande em 1934; Militão Ribeiro, operário têxtil que dirigiu inúmeras greves e morreu às mãos da PIDE em 1950; Chico Miguel, antigo sapateiro que nas cadeias fascistas ministrava cursos de marxismo aos seus companheiros de prisão; o jovem Alfredo Diniz (Alex), operário metalúrgico, organizador de lutas reivindicativas assassinado pela polícia política em 1945, etc.

Essa tradição perdeu-se quando foi inflectida a linha dos partidos comunistas para englobar nas suas lutas todas as aspirações das classes que constituíram as frentes antifascistas. É assim que hoje, dentro dessa abordagem interclassista, são eleitos para as direcções uma maioria de pequeno-burgueses e surgem, como teóricos ditos marxistas, professores universitários e outros intelectuais.

Vê-se muito isolado quem se queira desligar das correntes intermédias que interpretam os anseios da pequena burguesia em nome da luta pelo socialismo. Com poucos ou nenhuns apoios, afasta-se da grande massa dos que embandeiram em arco com as supostas potencialidades revolucionárias da colaboração de classes para se encontrar num deserto em que faltam militantes convictos e prontos para a dureza da travessia, operários ganhos para a perspectiva da organização do partido comunista, para a conquista do poder proletário, massas semiproletárias intermédias decididas a pôr-se ao serviço desta causa.

É esta a situação real. Não há que iludir-nos. Nada mais podemos oferecer. Mete medo enquanto formos muito poucos. Há que fazer a travessia do deserto, mas é o único caminho, não há outro. A bela utopia dos proletários de todo o mundo unidos para instaurar a sua ordem contra quem os oprime é a meta a alcançar.

Setembro 2016

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