Falsas dicotomias nos movimentos contra as opressões

arton2049

Diana Costa

Há uma narrativa prevalecente na história dos movimentos sociais e políticos que diz que, a partir dos anos 60, com o aparecimento daquilo a que se chamou os Novos Movimentos Sociais, as reivindicações classistas construídas em torno do movimento operário foram substituídas por movimentos fragmentados com reivindicações parciais e identitárias (feministas, estudantis, etc). Mais tarde, os herdeiros das teorias dos Novos Movimentos Sociais acrescentam ainda que, a partir de meados dos anos 90, uma nova geração de Novíssimos Movimentos Sociais veio a propor novas sínteses entre as reivindicações económicas e laborais e as identitárias, rompendo com a dicotomia vigente.

Há alguns problemas a apontar a esta narrativa, por exemplo, que alguns dos mais importantes movimentos (notavelmente o feminismo) já tinham surgido muito antes dos anos 60 ou que  muitas das causas associadas a esta época, como o ecologismo e os movimentos contra a guerra não são propriamente identitárias. Mas talvez o equívoco mais perigoso, por apresentar mais repercussões no momento atual, seja a ideia otimista de que a política contemporânea conseguiu superar favoravelmente a tensão entre o movimento operário e os novos movimentos sociais e superar a dicotomia entre causas particulares e causas universais. Ora, está dicotomia está longe de ser superada, pelo contrário a tensão entre luta de classes e feminismo, anti-racismo, anti-homofobia, etc, está viva e não se recomenda.

A incapacidade dos movimentos sociais ou de alguns setores dentro destes de situarem a sua luta particular no contexto mais abrangente da sociedade capitalista deu-nos alguns  episódios particularmente notáveis nos últimos tempos. Tão notaveis quanto absurdos. Quando o movimento feminista se regozija por ver paridade na administração empresarial ou quando o movimento LGBT é mercantilizado e vê as suas arenas de luta ocupadas pela banca e pelo pinkwashing das grandes corporações, vemos que há um longo caminho a percorrer. O capitalismo constrói-se diretamente sobre a opressão da classe trabalhadora e sobre as opressões duplas e triplas das suas franjas mais descriminadas. A ascensão de uma pequena parte das classes oprimidas, sejam elas vitimas de machismo, racismo, xenofobia ou homofobia, a lugares de destaque no seio do próprio capitalismo não serve nem a luta de classes, nem os movimentos contra a opressão. Quanto muito, serve grupos minoritários dentro das classes oprimidas que, por terem algum privilégio, conseguem superar parcialmente algumas das amarras que as prendem, contribuindo para alimentar a ilusão de que sim, seria possível encontrar a igualdade no seio do capitalismo.

Não é. Por cada mulher em lugar de topo, há mil, dez mil mulheres duplamente oprimidas. Por cada ação simbólica corporativa de apoio a um grupo oprimido há dez, cem ações reais e duras que reforçam a opressão. Por cada história individual de superação, há muitas, muitas mais histórias individuais de queda, de repressão, de violência. E há um silêncio, um silêncio atroz que é imposto às classes oprimidas, infelizmente não apenas por parte da burguesia e do patriarcado branco mas também por aqueles que deveriam ser os primeiro aliados na luta. Por um lado, pelas franjas mais privilegiadas dentro dos próprios movimentos. Por outro lado, pelos elementos das classes trabalhadoras que, não sofrendo diretamente na pele opressões múltiplas, alinham numa narrativa desfasada da realidade que invisibiliza sistematicamente as lutas feministas, LGBT, anti-racismo, etc…

Ser ativista e mulher, ser uma pessoa negra, cigana, imigrante, lésbica, gay ou transexual, entre muitas outras opressões é mover-se constantemente num mar de escolhos entre um ativismo identitário burguês radiante que quer falar em nome de todos e todas enquanto nos diz que devemos aceitar felizes as migalhas que nos dá a burguesia e uma militância de classe que ignora as opressões específicas que ocorrem dentro da própria classe e que silencia repetidamente as vozes dissonantes por hipervalorizarem aspectos considerados sem importância ou demasiado parcelares e posmodernos.

É hora de construir uma luta de classes que decorra lado a lado com as lutas contra todas as opressões e de romper definitivamente com o silêncio que é imposto a quem só tem a sua voz e a sua força para lutar contra a opressão que vive diariamente.

 

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