Reformismo armado só atrasa a revolução

NPA

Ana Barradas

O Novo Exército Popular das Filipinas (NEP), braço armado do Partido Comunista das Filipinas (PCF) – que até bem recentemente esteve em negociações de paz com o governo filipino – executou em meados de Julho um ataque a oficiais do Grupo de Segurança Presidencial, em resposta à decisão do presidente filipino de expandir a lei marcial até o final deste ano de 2017 na região de Mindanau, onde os maoistas têm a sua mais forte implantação.

Há quem veja nesta acção e outras uma manifestação exaltante de que há forças revolucionárias que não desistem de levar às últimas consequências a sua luta contra o sistema. Talvez não seja bem assim.

Há 48 anos de armas na mão, o Novo Exército Popular, criação do PC maoísta, segue a linha mao-dimitroviana da frente popular, a mesma que levou ao poder pequeno-burguês os guerrilheiros do Partido Comunista do Nepal (Maoísta) e outros da mesma índole (por exemplo, na Índia o partido maoísta continua a governar por maioria eleitoral o estado de Kerala, esquecendo-se de levar a luta às últimas consequências, isto é: tomar o poder perla força das armas e fazer a revolução). É que o reformismo, mesmo armado, acaba por capitular sem fazer a revolução.

Algumas das formações guerrilheiras existentes por esse mundo ainda não se renderam, é verdade, e manter-se no terreno durante décadas requer muita coragem, determinação e heroicidade. Mas são sacrifícios muito mal empregues para os resultados expectáveis, que não podem ser outros porque não há milagres: acabarão por se render. E, ao contrário do que se possa pensar, não servem a causa da revolução, apenas a retardam, ainda por cima desperdiçando a vida e a energia de militantes esforçados.

Há que reconhecer que o movimento de massas está privado da intervenção de qualquer vanguarda verdadeiramente revolucionária. Será necessário reatar a linha de continuidade com o bolchevismo aplicado à nossa conjuntura histórica e rejeitar de vez uma série de adaptações oportunistas do marxismo, desde o altermundismo, ao estalinismo, ao maoísmo e a todas as outras correntes pequeno-burguesas pseudomarxistas que têm soterrado o marxismo.

É absurdo continuar a desvalorizar a necessidade de uma ofensiva coerente dos marxistas revolucionários sob as condições da actualidade histórica. A revolução proletária não nasce espontaneamente, há que reunir forças para a preparar. Os revolucionários precisam de ser o sector mais decidido e impulsionador das forças de mudança contidas pelo reformismo mas sempre latentes nas massas exploradas – mesmo quando adormecidas – porque inerentes à sua condição.

Claro que a luta de classes não está superada, e a contradição principal proletariado-burguesia (produtores e exploradores) não tem de ser analisada hoje segundo critérios alheios ao marxismo clássico considerado obsoleto, como é a convicção dominante em muitas organizações neo-revisionistas e é moda repetir em uníssono com sectores da esquerda pequeno-burguesa. Esta e outras afirmações – cómodas de se fazer numa fase em que o imperialismo parece triunfante –, são disparates destinados a desmoralizar os que combatem para liquidar de vez este sistema capitalista.

Mas é preciso dizer que as formas programáticas encontradas pelos movimentos guerrilheiros não servem, e não há luta armada que resista a uma agenda que acaba na capitulação. Basta mencionar insurreições mais antigas esmagadas pelo sangue da repressão genocidária (Tigres Tâmiles no Sri-Lanka), a partilha do poder com a burguesia pelos maoístas do Nepal, o impasse dos naxalitas no Corredor Vermelho do subcontinente indiano, o refluxo do EZLN no México, e situações mais antigas como o fim do período revolucionário na Nicarágua, em El Salvador, Chile, Nicarágua, etc. – sem nenhum proveito para as massas oprimidas –, mais recentemente a capitulação das FARC, etc. Alguma coisa está errada, e não é o recurso às armas. Mas não chega determo-nos nesta conclusão. Há que tirar ilações.

O ponto é que, sendo a luta armada produto da luta de massas, nem sempre ela resulta em revolução. Mais: sendo dirigida por uma ideologia intermédia, neo-revisionista, maoísta, reformista, etc., ela desemboca sempre em claudicação, compromisso com a burguesia, abandono das metas orientadas para as “últimas consequências”, renúncia à revolução proletária em nome de compromissos nacionais, de classe, ou conveniências tácticas.

Habituámo-nos a exaltar as formas de luta armada que ainda persistem nos nossos dias, e muitas vezes pelas boas razões – isto é, por serem lutas e por serem armadas –, mas na realidade esquecemo-nos de as classificar como instrumentos ideológicos servindo determinados fins que acabam por ser contrários à tomada do poder pelas forças revolucionárias. Quem as dirige opta por partilhar esse poder com a sua burguesia, que é tributária do imperialismo. Basta citar a Frente Farabundo Marti (Salvador), os sandinistas armados, o Sein Fein, a ETA, as FARC, etc. E depois há a luta armada islamita, que também a há nas Filipinas, por exemplo, ela também nascida da luta de massas, e nem por isso particularmente estimável. Mas esses são de uma outra espécie, é outra história.

Tudo para dizer: não basta a luta de massas, não basta a luta armada. É preciso que no posto de comando desses combates esteja a ideologia marxista-leninista, sem contrabandos interclassistas. Sem isso não haverá revoluções.

Se nos recusamos a encarar este problema de frente, como questão de primeira grandeza que deve reger todas as nossas considerações sobre o que se passa à nossa volta (e connosco), temos o caminho traçado para acabarmos do lado dessa outra barricada que não é a nossa.

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2 pensamentos sobre “Reformismo armado só atrasa a revolução

    • Caro Alceu Rego, obrigada pelo seu comentário. Quanto ao governo maoísta do estado indiano de Kerala, posso reafirmar que sim, o CPI(M) – Communist Party of India (Marxist) estiveram longos anos no poder (e creio que ainda estão) . Eu própria fui testemunha disso quando há uns anos estive em Kochi (Cochim) onde conheci vários dos seus membros. O que é mais impressionante aos olhos de um visitante como eu é a pacífica convivência entre bandeiras vermelhas, cartazes, propaganda de foice e martelo, etc. daquele partido e os inevitáveis anúncios, actiividades e campanhas publicitárias das grandes multinacionais. Kerala rege-se pelas leis do mercado capitalista ao mesmo tempo que adopta uma política social que fez dele o estado com os índices mais elevados de desenvolvimento humano, equiparáveis a um país como Portugal, por exemplo.
      O CPI(M) maoísta é uma cisão do revisionista CPI. O CPI(M) por sua vez sofreu uma cisão de onde surgiu o também maoísta Partido Comunista da India (Marxista-Leninista) e mais tarde o CPI-ML-Peoples War, que iniciou uma luta armada intermitente e muito localizada.
      Há outros grupos e partidos maoístas, entre os quais os naxalistas do Partido Comunista da Índia (Maoísta), o mais destacado na guerra de guerrilha e com grande implantação camponesa. Porém, destas formações maoístas só o CPI(M) concorreu a eleições e ganhou o poder por essa via.

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