O pensamento colonial de Jorge Dias

Jorge Dias

Ana Barradas

Há precisamente 40 anos, o Estado Novo supunha que as opiniões políticas de Jorge Dias sobre a situação em que se encontravam as colónias que acabava de visitar, a convite de Adriano Moreira, seriam acima de toda a suspeita, por se tratar de uma figura académica prestigiada, não afecta ao regime e cuja capacidade de análise era reconhecida por todos. Por isso o escolheu para fazer um estudo sobre as “minorias étnicas das províncias ultramarinas”.

Quando, em 1956, concluiu o primeiro relatório confidencial, o famoso etnólogo dispunha-se a estabelecer um plano de trabalho que não fosse de “mero interesse científico”, visto que também chamaria a atenção “dos indivíduos responsáveis pela defesa dos interesses nacionais” para os problemas encontrados (1). Acabou por proceder a um levantamento sociopolítico que terá sido de extrema utilidade para o governo, pela argúcia das observações, pela preparação intelectual do relator e por se tratar de um olhar diferente, menos subjectivo e mais verdadeiro do que o dos funcionários e agentes directamente envolvidos nas colónias.

Foi assim que, na qualidade de chefe da Missão de Estudos das Minorias Étnicas do Ultramar Português, Jorge Dias informou sistematicamente o poder, através de cinco relatórios anuais(2) apresentados ao Centro de Estudos Políticos e Sociais, acerca do clima sociopolítico que se vivia nas colónias visitadas. O seu pensamento nesta matéria é pouco conhecido porque, nos quatro volumes da sua obra-prima, e mais divulgada, Os Macondes de Moçambique(3), e noutras menos importantes, quase não fez alusão aos factores que escalpelizou, nos relatórios reservados, como ameaça à colonização portuguesa.

O facto de poucas vezes vir claramente à discussão o pensamento colonial de Jorge Dias (4) reflecte talvez um compreensível desejo dos seus discípulos de valorizar no mestre apenas os traços mais estimáveis: a carreira distinta de professor e etnólogo, as qualidades de trabalho, o calor e generosidade pessoais. Contudo, passados 40 anos sobre essa época, faz sentido lançar luz sobre a sua faceta mais desconhecida e responder à questão que muitos de nós, que admiramos a sua obra maior, temos colocado: sendo o homem que foi, vivendo na época em que viveu, que espécie de ideias políticas eram as suas?

AFRICANISTA PERPLEXO

O primeiro relatório, de 1956, distingue-se dos restantes por se debruçar minuciosamente sobre as questões étnicas e religiosas em Moçambique. A impressão que fica é que Jorge Dias, até então dedicado à etnologia em Portugal continental e subitamente investido da qualidade de africanista, numa área e num contexto que lhe eram estranhos, ficou nessa altura sob a forte influência de uma situação inesperada que nessa visita o chocou e da qual ainda não estava refeito. A surpresa perplexa que nele se adivinha tinha dois fundamentos: antes de iniciar a viagem, não imaginava, por um lado que os portugueses daquela colónia fossem tão racistas; por outro, que o islamismo fosse ali uma força tão poderosa.

Analisando o que viu, preocupava-o sobretudo que o desprezo manifestado pelos portugueses em relação às outras raças redundasse em proveito de outros: “Se o elemento misto [os mestiços], que é, pela situação étnico-social desfavorável, um elemento descontente, não for por nós amparado, ele passa a formar bloco com os indianos, o que lhes dá então superioridade numérica em relação ao colono branco”. E critica a legislação, que devia aceitar “como mistos os filhos de negras e brancos, sempre que um grupo de peritos reconhecesse a sua insofismável ascendência, ou testemunhas o comprovassem”.

Tentando sempre apontar vias de saída possíveis para os impasses da política colonial, sugeria: “Esses mistos, educados em escolas técnicas que lhes dessem possibilidade de vir a desempenhar profissões mais bem remuneradas, que os colocassem numa situação económica superior à do negro, acabariam por encontrar a satisfação de aspirações legítimas, fazendo deles cidadãos úteis integrados na sociedade portuguesa e não elementos descontentes e perigosos, capazes de em qualquer ocasião se virarem contra nós”.

Via a difusão do Alcorão e a “actividade missionária indiana-muçulmana” como “um perigo para a segurança nacional”, por esta religião ser identificada como a “dos homens de cor” e entrar em franca concorrência com as missões católicas. Chegou a ir à mesquita de Lourenço Marques, onde conseguiu “iludir a desconfiança” dizendo que “gostava de conhecer melhor os princípios da religião”. Forneceram-lhe uma tradução inglesa do Alcorão, que lhe suscita o seguinte comentário: “Pode ser dito que o facto de os exemplares do Alcorão oferecidos serem em inglês não constitui grande perigo, o que não é verdade, visto uma grande parte da população civilizada de Moçambique e muitos indígenas perceberem inglês. Além disso, falta saber se não haverá também o Alcorão traduzido em qualquer língua negra”.

Considera suspeitos certos grupos de difusão islâmica vindos do Tanganica e afirma ter “surpreendido”, em certa aldeia, um maconde que tinha construído uma mesquita. Falando com um dos fiéis, reparou que revelava “nítida formação pan-africana”. Estranha que aquela família se tenha vindo instalar “no coração do planalto maconde” numa altura em que “os nossos macondes debandam para o Tanganica”, tanto mais que a aldeia “não tinha acesso directo da estrada… como se se ocultasse dos olhares do administrador. Tudo isto é suspeito e exige um certo cuidado… Mas, com o tempo e cautela, havemos de desvendar o mistério”.

A influência indiana, muito marcada nas populações africanas, era para ele “motivo de apreensão” pelo facto de, “por trás dela, existir uma tendência de domínio político-social”. “As estultas pretensões da Índia à posse de Goa” levavam os indianos a pôr as suas libras a recato na África do Sul, com “prejuízo para a economia da província” (5).

Atribuía à Índia a esperança de se substituir ao europeu em África e avisava: “Uma organização de Bombaim enviou, em 1956, convites para uma conferência de carácter subversivo ao Centro Associativo dos Negros de Lourenço Marques” (6).

Os industânicos de religião bramânica também eram para ele um foco de subversão: “Sabe-se que lhes chegaram às mãos uns folhetos subversivos remetidos da União Indiana que davam instruções sobre os meios de provocar distúrbios e vária outra agitação revolucionária contra nós. O sr. Engº Supico Pinto (7) recebeu um exemplar de um folheto de propaganda para entregar na Metrópole”. Além disso, recebem livros em língua guzarate, escondidos em sacos de roupa vinda da União Indiana (“há notícias de que em Montepuez há muitos desses escritos”). Jorge Dias obteve dois exemplares que trouxe para Portugal “onde poderão ser devidamente examinados” (8).

Os goeses de Moçambique, contudo, produziram-lhe melhor impressão (“bons cidadãos, inteiramente integrados na nossa cultura e animados de sentimentos patrióticos” (9)) e chega a alvitrar que se pensasse nas “vantagens ou desvantagens de colocar muitos funcionários goeses em Moçambique” (10).

Os chineses merecem-lhe referência essencialmente positiva, mas a escola chinesa que funciona em Lourenço Marques e alberga uma organização de jovens escuteiros suscita-lhe reservas, pelo que considera que “convém não perder de vista” ambas. Além disso, as relações mantidas por essa minoria com a China natal “são sempre uma porta aberta para possíveis infiltrações” (11).

Discutindo as posições relativas das várias etnias, afirma, optimista, que, apesar do “esforço tenaz de islamização” e da propaganda antiportuguesa de origem indiana, “entre o branco e o indiano, o indígena aceita indiscutivelmente a superioridade do branco”. Porquê? Por causa “do pouco respeito que o baixo nível de vida e por vezes sordidez do comerciante indiano do mato lhe merece” (12).

Sobre os negros – que, embora sendo a maioria, são referidos com frequência a propósito das suas relações com as outras raças –, as primeiras apreciações de Jorge Dias têm o sabor dos conceitos da antiga antropobiologia que ele próprio rejeitara como inadequada e retrógrada. Emite juízos subjectivos e estereotipados: “[os pretos] guardam na memória todas as justiças ou agravos que lhes forem feitos”, “têm um sentido muito vivo dos seus próprios direitos, embora não sejam sensíveis aos direitos dos outros. Por isso é tão difícil conseguir que perdoem ou que fiquem agradecidos”, etc. (13).

Deste primeiro relatório ressalta pois uma noção central: pesava uma ameaça global sobre os esforços coloniais do governo; as influências de origem exógena eram perniciosas (a cultura indiana, o islamismo como “o veículo mais activo de propaganda da luta contra o branco”, a África do Sul, etc.) por prejudicarem a influência portuguesa, que podia ser idealmente positiva, se os colonos se comportassem de modo correcto; muitos estrangeiros tinham defeitos (roubavam os africanos, criticavam e caluniavam os portugueses para captar a simpatia dos pretos, difundiam uma religião não cristã) e alguns eram até perigosos (os macondes do Tanganica, o anticolonialista Nyerere, os muçulmanos das mesquitas, os indianos, “os grandes exploradores dos frutos do comércio com o indígena”, os “ricos e poderosos banianes, adversários perigosos”); mesmo os que mereciam alguma consideração (os chineses) precisavam de ser controlados.

Mais tarde, Jorge Dias não abandona esta concepção um tanto obsessiva, que hoje avaliamos como xenófoba. Acima de tudo, nunca deixa de revelar-se indefectível apoiante da superior missão “civilizadora” dos portugueses em África e nem por um só momento se questiona acerca da razoabilidade do desejo de autonomia africana ou da capacidade de outras culturas rivalizarem com a ocidental.

RACISMO DO PORTUGUÊS COLONIAL

As opiniões que formou acerca dos portugueses daquela colónia eram bastante negativas: a admiração que manifestavam pelo progresso económico da África do Sul impedia-os de ver que “este colosso, a que falta uma vida intelectual e cultural de nível europeu, está assente em pés de barro”; a forma com que “se agarram avidamente à oportunidade de subir, julgando que para isso é necessário rebaixar o negro” favorecia o descontentamento das pessoas de cor e a sua adesão a outros padrões culturais, como o indiano.

Estabelecia uma relação directa entre as práticas racistas e o pouco sucesso da religião cristã entre os negros: “A grande força do cristianismo, que é indubitavelmente o princípio do amor ao próximo, da fraternidade, da caridade, da humildade, parece que foi esquecida pela grande maioria dos nossos compatriotas moçambicanos. O preto tornou-se para eles um ser desprezível e irrisório, que julgam ter o direito de utilizar… É fácil convencer um preto católico de que não passa de um bobo, pois o Cristianismo é uma religião de brancos”.

Diante desse racismo tão ostensivo, que ilustra com exemplos profusos e verídicos, Jorge Dias não recua contudo na convicção anteriormente formada de que o português sempre foi praticante da boa convivência com outros povos. Tomando a experiência brasileira de miscigenação como obra dos portugueses e subscrevendo a teoria de Gylberto Freire sobre o lusotropicalismo, conclui, sem parecer encontrar razões para o fenómeno: “Infelizmente o português está a tornar-se muito mais racista do que era”.

Mais tarde, reformulará em parte algumas das suas ideias a este respeito, acrescentando-lhes elementos mais complexos. Em particular depois de voltar do Tanganica, e por comparação com os ingleses, reconhece o racismo generalizado entre os portugueses (14).

Sem nunca o dizer expressamente, Jorge Dias comunga da ideia colonial fundamental: há povos dominados por uma minoria culturalmente diferente e isso não tem nada de mal, pois que esta última é portadora de uma superioridade civilizacional (origem cristã, tecnologia avançada, economia organizada) pela qual educa e disciplina as massas atrasadas, integrando-as no processo produtivo que dirige, e eleva ao mesmo tempo até si as camadas superiores da maioria, assimilando-as.

Esta ideia central perpassa a todo o momento nos seus relatórios, conjugada com o desejo reiterado de impedir que esse domínio fuja das mãos dos portugueses, seja alienado por outros dominadores ou destruído pelos dominados (15).

Acreditava Jorge Dias realmente que o colonialismo português era diferente, mais tolerante e a melhor solução para o desenvolvimento dos povos dominados? Teve a ingenuidade de crer que o regime de assimilação poderia dar frutos excelentes e que umas tantas reformas inteligentes poriam tudo no seu lugar? Mesmo descontando alguma necessidade táctica – dado o contexto em que redigia os relatórios e a entidade a que se destinavam – pensamos que sim, que era totalmente sincero nessas apreciações, como de resto parece ter sido seu hábito ao longo da vida.

Tais ideias consolidaram-se quando observou atentamente o colonialismo inglês no Tanganica e o apartheid na África do Sul (1959). Comparou o que achou de bom e de mau nos três sistemas de gestão colonial e procurou inspirar-se para sugerir melhorias no lamentável aparelho português com que se deparara. Nos últimos anos de campanha, é detectável o seu desalento e pessimismo quanto ao futuro.

PORTUGAL ISOLADO

O Plano de Fomento Nacional de 1953-58 previa medidas de desenvolvimento e obras públicas de vulto nas colónias. Os colonatos eram agora uma realidade. Salazar consentia por fim, ainda que a medo, o investimento estrangeiro nas suas províncias ultramarinas. Craveiro Lopes, o presidente da República, fez em 1956 um périplo pelos vários territórios, inaugurando barragens, pontes, estradas, etc., numa afirmação de progresso e unicidade do território nacional.

No plano político, o Estado Novo continuava a jogar, como sempre, na esperança de manter as suas colónias imunizadas contra a subversão. Convenceu-se que o poderia fazer, da mesma maneira que mantinha o próprio Portugal continental imunizado contra a democracia. No entanto, tinha de proceder a cedências tácticas, alterações – ainda que essencialmente cosméticas, como se percebe hoje – do tipo da lei do indigenato, aprovada nessa época.

Entretanto, a década de 50 revelou incontível o processo da independência dos territórios africanos. Ainda estavam bem na memória de muitos as revoltas dos Mau-Maus do Quénia contra os colonos brancos (1952-54). As críticas às práticas coloniais intensificavam-se. O massacre de mais de 100 trabalhadores de S. Tomé em 1953 fez tremer as consciências. Nesse mesmo ano, um grupo de angolanos enviava às Nações Unidas um documento de protesto contra a miséria e a brutalidade na colónia. A questão do trabalho forçado, denunciada por Basil Davidson em 1954, ia sendo glosada em vários diapasões nos jornais e revistas da Suécia, França, Estados Unidos e Brasil. (16).

A conferência de Bandung, em 1955, lançara as bases do movimento anti-imperialista dos países não-alinhados, que desde logo tomou como sua a luta pela emancipação e soberanias nacionais. A Comissão de Curadorias da ONU convidava Julius Nyerere a expor as suas reivindicações como chefe do Tanganyika African National Union (TANU). O então Congo Belga agitava-se, preparando-se para a independência de 1960. O conflito luso-indiano em curso em 1955, a propósito da posse de Goa, acentuou a animosidade dos países afro-asiáticos. Na ONU, estes, apoiados pela União Soviética, criticavam a ditadura portuguesa, que se recusava a fornecer informações sobre as suas colónias. Contudo, e apesar de incidentes como o massacre de Pidjiguiti de 50 estivadores guineenses e a repressão de timorenses revoltados, ambos em 1959, Portugal conseguia frustrar os ataques à sua política, apoiando-se nos aliados possíveis e desenvolvendo uma campanha de contrapropaganda, em que teve particular relevo a formação da Comunidade Luso-Brasileira e a teoria do luso-tropicalismo (17).

Terá sido pelo seu perfil profissional e empenho na permanência de Portugal em África que Jorge Dias foi convidado pelo governo, em 1960, a acompanhar Charles Wagley, chefe do Departamento de Antropologia da Universidade de Colúmbia, a visitar as colónias. Este académico americano trabalhava com o professor Marvin Harris, que no ano anterior criticara com dureza, num estudo muito divulgado (18), o regime de contratação de trabalhadores do sul do Save para as minas da África do Sul.

O governo português convidara Wagley para desfazer qualquer má impressão. Quem melhor do que o ilustre etnólogo para o esclarecer?

A descrição que Jorge Dias faz (19) sobre como conduziu a difícil visita e os episódios por que passou para transmitir as melhores impressões, ainda que por vezes falsas, é talvez o registo que melhor nos elucida sobre a forma como estava de corpo e alma com os desígnios do governo.

Quando a família Wagley comentou, com razão, que Lourenço Marques era uma cidade de brancos, correu a levá-los aos miseráveis bairros indígenas e ao mercado de Xipamanine, sem contudo os demover da sua opinião. As instalações onde os contratados para as minas do Rand eram concentrados e levados em camiões até ao caminho-de-ferro “despertaram sempre exclamações de indignação” aos seus companheiros. Em Inhambane, num cinema, Jorge Dias mostra aos americanos os preços dos bilhetes: adultos 25$00, estudantes e indígenas 7$50. Os visitantes ficam bem impressionados. Lá dentro, descobre que as primeiras filas estavam separadas do resto por um tapume baixo. “Tenho quase a certeza de que os tais lugares para indígenas, mais baratos, são aqueles da frente. Se no dia em que fomos ao cinema houvesse por acaso indígenas, os americanos teriam descoberto o dolo” (20). E toda a viagem prossegue neste tom, no meio de equívocos, encobrimentos, inverdades, omissões e episódios entre patéticos e anedóticos, por parte das autoridades e do próprio Jorge Dias, que a tal “frete” se sente obrigado por dever patriótico.

OS MACONDES: SINTOMAS DE MUDANÇA

Depois da viagem prospectiva de 1956, Jorge Dias escolheu como objecto de estudo os Macondes do planalto do mesmo nome, no norte de Moçambique. Aí se desenrolaram as cinco campanhas anuais que deram origem à célebre monografia.

Mas a incumbência de Jorge Dias não era apenas o estudo, como já vimos. Devia também fazer o levantamento da situação sociopolítica do outro lado do Rovuma, onde viviam os Macondes do Tanganica e grande número de macondes moçambicanos imigrados (na altura, um quarto da população total do planalto).

Julius Nyerere formara o TANU e preparava-se para negociar a independência com os ingleses. Toda a África tinha os olhos postos nele. O chefe da Missão, atento aos “problemas criados pelos interesses internacionais” (21) nessa região, percebia bem o perigo de contaminação e já reparara que as centenas de macondes que regressavam comentavam com orgulho que “é um preto que está à frente do governo do Tanganica, porque estudou e sabe muito”. Por causa do alastrar “de ideias subversivas entre os nossos indígenas”, Jorge Dias recomenda: “Devíamos ter todo o cuidado em evitar o regresso dos elementos perigosos” (22).

Descortinando os sintomas de mudança que então já se viviam no planalto – e que, aliás, viriam a forçar, em 1960, a suspensão definitiva dos trabalhos da missão antropológica – e já mais conhecedor da situação, Jorge Dias é categórico: “Muitos dos responsáveis residentes nesta área são de opinião que não nos aguentaremos no Norte mais de vinte anos” (23). E não pode deixar de desabafar, desiludido: “Ao contrário daquilo que em geral se pensa, e que eu também pensava, os pretos, hoje, nesta região, temem-nos, muitos detestam-nos e, quando nos comparam com outros brancos, é sempre de maneira desfavorável para nós”.

O quadro que imagina “quando o Tanganica obtiver a sua autonomia” é catastrófico: “Em tal caso víamo-nos a braços com uma massa de gente habituada a um nível de vida melhor, sem nenhuma consideração por nós, altamente trabalhada pela propaganda que lavra no Tanganica”. O remédio que propõe não o é menos: “Julgo que haveria toda a vantagem em impedir que estes indígenas gozassem de regalias de cidadania e se estudasse a maneira de os obrigar a optar por Moçambique ou pelo Tanganica, dando-lhes um prazo relativamente curto. Como por enquanto a maioria provavelmente prefere ficar no Tanganica, evitamos qualquer surpresa muito desagradável no futuro” (24).

No entanto, não se quis comprometer por completo com os intuitos políticos da missão, porque o seu principal interesse, que lhe importava preservar, era outro. E comenta no mesmo relatório que, se os membros da missão permanecessem longamente na região “sem lhe dar o carácter de estudo etnográfico de uma população primitiva, corríamos o risco de nos tornarmos suspeitos e de não penetrar nos meandros de certos problemas obscuros. Assim, todas as suspeitas se desvaneceram e o estudo dos macondes, que podia ser um simples pretexto para desviar as atenções, foi para nós objecto de um estudo aturado e verdadeiramente apaixonante”.

Nestas considerações transparece, mais do que em quaisquer outras, o compromisso que terá consentido para aproveitar uma convergência de interesses que possivelmente nunca mais se repetiria. A escolha era óbvia: só poderia fazer aquela investigação com os fundos e o aval do Estado. Por seu lado, o Estado só o autorizaria a investigar se ao mesmo tempo ele fornecesse informações que estaria em excelente posição para recolher…

Apesar de tudo, é visível, ao mesmo tempo, que essa segunda função de reunir informações úteis ao governo se lhe vai afigurando cada vez mais razoável: “De facto, hoje em dia, a colaboração de técnicos das ciências sociais torna-se indispensável em quaisquer trabalhos que envolvam reformas económicas, visto que o económico e o social estão intimamente relacionados” (25).

As tensões sociais agravaram-se em 1958, verificava Jorge Dias. Muitos macondes regressavam do Tanganica, criando instabilidade. Ao verem as suas terras ocupadas, “apelam para os direitos sucessórios, dizendo que esta ou aquela terra era de seu tio ou de seu pai e que, portanto, têm direito a ela”. Considerando a situação, comenta que ela não seria grave “se não fosse a excessiva velocidade do processo, o rápido empobrecimento dos solos e as ideias subversivas daqueles que chegam do Tanganica e a todos falarem das proezas do Sr. Nyerere” (26).

Escapava-lhe, ou não queria analisar, o cerne da questão: o cultivo obrigatório do algodão, o grande cancro que minava a vida de todos os macondes. Em 1956, participaram na campanha do algodão 519.000 agricultores moçambicanos, que receberam uma média de 11$17 por pessoa, como paga por um ano inteiro de trabalho numa cultura forçada que envolveu mais de um milhão de homens, mulheres e crianças(27). Nos anos seguintes, todos os que dependiam do algodão viveram uma situação aflitiva e carências de toda a ordem. Era porque tinham de cultivar cada vez mais hectares de algodão que as populações reclamavam terras onde pudessem plantar o mínimo indispensável para sobreviver (mandioca, milho, arroz, legumes, fruta, etc.), sem o que morreriam à fome. Nunca como na colheita de 1959-60 se produzira tanto em Moçambique, para alimentar a florescente indústria têxtil metropolitana: 46 mil toneladas de algodão em rama, contra 36 mil em 1957-59 e 28 em 1955-57. Em 1960, as médias de produção foram de 240 quilos por produtor, bastante mais do dobro da média de 1940-43 (28).

COLONIZAR COMO OS INGLESES

Em 1959, a Missão não foi ao planalto. Nesse ano, Jorge Dias deslocou-se ao Tanganica para recolher dados sobre os Macondes desse lado do Rovuma, possivelmente pensando numa incumbência que assumira: “O Exmo. Professor Raul Ventura, ex-Ministro do Ultramar, disse-me antes de a Missão sair para Moçambique que gostaria de ter algumas informações relativamente à situação política e social em alguns territórios vizinhos (…) e que se fosse possível desse uma volta por lá” (29).

A sua admiração com o que encontrou é indisfarçável: “Enquanto que nós, ainda hoje considerados como o povo menos discriminador por índole e tradição, apresentamos um quadro verdadeiramente deformado dessa tradição no Norte de Moçambique, os ingleses causam uma surpresa ainda maior no Tanganica, pela sua política de confraternização multirracial” (30). Entusiasmado, sugere indirectamente que se adopte a mesma táctica, dados os seus bons resultados: “A grande experiência colonial inglesa levou-os a proceder desta maneira no Tanganica. Não sabemos se há sinceridade ou não nesta orientação, nem isso interessa; o que sabemos é que o funcionalismo inglês corresponde de maneira absolutamente perfeita à orientação superior” (31).

É em 1959 que entra mais a fundo nas matérias políticas em que antes procurara não se enredar. Relata que se constituiu a Tanganyika-Mozambique Makonde Union (TMMU) (32), associação mutualista em que vê “uma ameaça concreta”, por poder ser “um movimento de cariz proto-nacionalista”. Sossegado em parte por um missionário que lhe garante tratar-se de uma causa nobre, instituída com o apoio da Igreja para lutar contra as tendências de islamização, alerta no entanto: “…Amanhã pode ser uma arma perigosa nas mãos dos chamados nacionalistas africanos” e, “no dia em que o Tanganica obtiver a independência”, [pode ser] “uma cunha metida em território português e um motivo poderoso de reivindicações e de conflitos com Portugal”(33).

Entretanto, em Moçambique eram presos na mesma altura vários dirigentes macondes da Sociedade Agrícola Algodoeira Voluntária dos Africanos de Moçambique, cooperativa de pequenos produtores com cerca de mil associados, que procuravam defender-se dos preços das grandes companhias algodoeiras e das imposições legais portuguesas.

Não sabemos se este facto terá escapado a Jorge Dias, que não o refere. Em todo o caso, foi depois dessa prisão que se constitui no Tanganica a Makonde African National Union (MANU). À cabeça dessa associação surgiram antigos membros da TMMU (Faustino Vanomba, Quibaite Duane, Tiago Mula). Ter-se-iam pois reunido nesta nova associação interesses até então separados – o dos pequenos produtores de algodão e o dos imigrantes mais pobres a trabalhar nas sisaleiras do Tanganica – cuja convergência terá concorrido para o reforço da resistência anticolonial.

No ano de 1960, às vésperas das lutas de libertação nacional que puseram termo ao colonialismo português, Jorge Dias deu por praticamente concluído o trabalho da Missão, embora tivesse ainda programado uma nova campanha, em 1961, que não chegou a realizar-se. Também em 1960, surgiu, a 16 de Junho, o primeiro incidente sério que fez alastrar a luta de libertação (34) e precipitou a fundação da Frelimo: o levantamento de Mueda, em que foram massacrados 600 homens, mulheres e crianças, quando milhares de macondes se encontravam reunidos na povoação, para uma suposta negociação com o administrador português. Na realidade, tinham sido atraídos a uma cilada para captura dos seus chefes que, durante todo o primeiro semestre desse ano, haviam enviado delegações da MANU ao planalto, junto do administrador de Mueda, solicitando ingenuamente o início de negociações para a independência de Moçambique.

Nesse ano, com Jorge Dias a braços com a visita de Wagley e o resto da equipa ocupada noutros estudos, só Margot Dias regressou ao planalto, sozinha, para acabar de recolher alguns elementos em falta. Apesar de muito estimada, não foi bem recebida. A população estava revoltada, enlutada e indisponível para reatar a excelente relação anterior.

Já não fazia sentido prosseguir estudos que procuravam prevenir a instabilidade política, visto que ela estava instalada. Por isso e por razões de segurança, Jorge Dias não voltou ao planalto.

A MISSÃO DO INTÉRPRETE RAFAEL

Mas a história da visita ao planalto não termina aqui. Quando Rafael, maconde de uns 17 anos de idade, educado na missão católica, falando e escrevendo bem português, foi contratado para intérprete dos antropólogos, nenhum destes últimos supôs que também ele tinha a sua missão: contactar os habitantes do planalto que lhe parecessem de confiança, inscrevê-los e entregar-lhes cartões da TMMU, a associação legal fundada no Tanganica, que serviu de cadinho para a formação e organização dos membros da futura Frelimo. Aproveitava-se da cobertura que lhe dava a sua tarefa junto dos portugueses – aliás excelentemente desempenhada, segundo testemunho oral recente de Margot Dias – para montar a rede clandestina de apoio ao movimento de libertação.

A ironia da situação, vista à distância, é lapidar: enquanto Jorge Dias se afadigava a lançar bem-intencionadas alertas às autoridades responsáveis pela política colonial para a introdução imediata de reformas que sustivessem o descalabro, o jovem moçambicano ajudava a preparar, sem que quase ninguém disso se apercebesse, as condições para acelerar o fim do domínio colonial.

Ironia maior foram as condições em que tive conhecimento deste facto: ele foi-me relatado pelo antropólogo americano Harry West, após uma visita que ambos fizemos a Margot Dias. Tendo escolhido o estudo dos Macondes do planalto como tese de doutoramento que defenderá ainda este ano, foi importante para ele recolher o depoimento pessoal da viúva de Jorge Dias, que tão grande contributo deu ao estudo então realizado. Além disso, Harry West era portador de uma carta muito respeitosa de Rafael que, apesar da distância e do tempo, exprimia sentimentos amistosos e uma recordação ainda muito viva do tempo em que conhecera a investigadora.

Curiosamente, Rafael serviu agora também de intérprete ao jovem investigador americano que, de resto, encontrou nos mais velhos, por todo o planalto, recordações bem vivas de Jorge Dias e, em particular, de Margot Dias, os primeiros portugueses com quem puderam conviver pacificamente e com proveito mútuo. Aliás, foi frequente Harry West deparar-se com a dificuldade de, ao pedir informações sobre técnicas de fabrico, ritos antigos, organização social, etc., obter como resposta o livro dos Dias aberto na página em que o assunto em causa aparecia tratado ou ilustrado com desenhos ou fotografias.

Se Rafael cumpriu com êxito a sua missão, nem por isso se extinguiu a admiração e respeito dos macondes pelo casal da missão antropológica. Jorge e Margot Dias continuam a ser, para os velhos do planalto, a imagem ideal dos brancos. Eles não pareciam portugueses, como dizia o régulo Diankali, há 40 anos, ao intérprete: “Um português não conversa connosco, só sabe berrar, fazer barulho!” (35).

HOMEM DO SEU TEMPO

Numa época em que se avolumavam, no contexto internacional, as críticas ao colonialismo português, as opiniões de Jorge Dias a esse respeito têm que se avaliar hoje como próprias de alguém que reflectiu as ambiguidades e limitações do pensamento do seu tempo e o peso da ideologia dominante: se não tomou a defesa incondicional do colonialismo português, cujas mazelas principais não lhe escaparam, também não foi mais além do que propor reformas para o consolidar. Se o criticou com frontalidade, apenas o fez em segredo.

Para as susceptibilidades que se sintam feridas por não encontrarem aqui um panegírico incondicional de Jorge Dias, esclareça-se: não se pretende fazer um juízo ético, mas apenas trazer a público uma questão, obscura porque pouco abordada, que confere novos contornos ao retrato de um personagem ilustre.

Com base em factos objectivos e declarações do próprio, penso poder afirmar que o conhecido antropólogo esteve sempre, de coração, com o colonialismo e contra a autonomia nacional africana. Actuou em conformidade, revelando-se como elemento activo na luta contra o isolamento internacional que o governo de Salazar teve de suportar, num processo evolutivo de adesão política cada vez mais expressa, que se pode detectar claramente nos seus relatórios confidenciais.

Procuro assim contrariar uma ideia bastante corrente que fez dele, erradamente, uma personalidade desinteressada da política, desconhecedora dos seus meandros, apenas empenhado no seu trabalho académico e pairando acima das paixões ideológicas.

Jorge Dias não foi contudo um mero informador das altas instâncias do regime. Terá decidido aceitar certas exigências para colocar em primeiro plano os seus objectivos etnológicos. Aliás, é sintomática a afirmação: “O verdadeiro relatório será a monografia do povo maconde” (36). No seu íntimo, o estudo científico estava acima das contingências temporais. Para salvar o primeiro, achou necessário pactuar com as segundas.

NOTAS
1) Jorge Dias, Relatório da Campanha de 1956 da Missão de Estudos das Minorias Étnicas do Ultramar Português, enviado a 8/11/56 por Adriano Moreira, na altura director do Centro de Estudos Políticos e Sociais ao ministro da Presidência do Conselho (Arquivo Salazar, Biblioteca Nacional, Lisboa), 23 pp.
2) Jorge Dias e Manuel Viegas Guerreiro, Relatório da Campanha de 1957 (Moçambique e Angola), Jorge Dias e Manuel Viegas Guerreiro, Relatório da Campanha de 1958 (Moçambique e Angola), Jorge Dias e Margot Dias, Relatório da Campanha de 1959 (Moçambique, Angola, Tanganica e União Sul Africana), Jorge Dias, Margot Dias e Manuel Viegas Guerreiro, Relatório da Campanha de 1960 (Moçambique e Angola), todos referentes à Missão de Estudos das Minorias Étnicas do Ultramar Português e publicados pelo Centro de Estudos Políticos e Sociais da Junta de Investigações do Ultramar, em Lisboa, respectivamente em 1958, 1959, 1960 e 1961.
3) Jorge Dias e Margot Dias, Os Macondes de Moçambique. Aspectos Históricos e Económicos, vol. I, Junta de Investigações do Ultramar, 1964; Jorge Dias e Margot Dias, Os Macondes de Moçambique. Cultura Material, vol. II, Junta de Investigações do Ultramar, 1964; Manuel Viegas Guerreiro, Os Macondes de Moçambique. Sabedoria, Língua, Literatura e Jogos, vol. IV, Junta de Investigações do Ultramar, 1966; Jorge Dias e Margot Dias, Os Macondes de Moçambique. Vida Social e Ritual, vol. III, Junta de Investigações do Ultramar, 1970. Segundo afirmou muito justamente Jorge Dias, “deve ser o trabalho mais completo realizado até hoje por portugueses, em relação a uma população ultramarina” (Relatório de 1958).
4) Lupi, que publicou a obra mais extensa e exaustiva que existe sobre Jorge Dias, afirma, lacónico: “Os Relatórios são obra de circulação reservada, pelo que faremos uso reduzido dos seus textos”, em J. Basto Lupi, A Concepção da Etnologia em António Jorge Dias, Publicações da Faculdade de Filosofia de Braga, Braga, 1984. R. Pereira, que analisou detalhadamente o papel da Missão de Estudos, não aprofunda os aspectos de maior envolvimento pessoal do etnólogo com o regime (Rui Pereira, Antropologia Aplicada na Política Colonial Portuguesa. A Missão de Estudos das Minorias Étnicas do Ultramar Português (1956-1961), FCSH / UNL, 1986.
5) Todas estas citações são do Relatório de 1956.
6)Relatório de 1957.
7) Capitalista muito afecto ao regime, com interesses em Moçambique, cuja mulher, Cecília Supico Pinto, viria a dirigir o Movimento Nacional Feminino durante a guerra.
8) Relatório de 1957.
9/10/11) Relatório de 1956.
12) No entanto, diz mais tarde, algo contraditoriamente: “Os rios de dinheiro que correm do suor dos pretos para a gaveta dos monhés do mato não vão enriquecer as terras africanas. Mercê de hábeis transacções, esse dinheiro vai parar à Índia ou ao Paquistão, onde os velhos indianos irão gozar os últimos dias da sua vida laboriosa (Relatório de 1957).
13) Relatórios de 1959 e 1960.
14) Senhor de incontestáveis capacidades intelectuais, mais tarde transpôs para a sua área de investigação os novos fenómenos políticos que observava, relacionados com conceitos de mudança, aculturação, conflitos de cultura, etc., e teorizou bastante a respeito. No entanto, esses trabalhos não atingiram a qualidade de outros. Neles contorna sempre o fenómeno colonial nas suas expressões práticas e concretas, como se o fizesse por deliberação, para não se posicionar sobre ele. Não podendo expor abertamente a atitude crítica que mantinha, terá preferido omitir opiniões?
16) Em An African Awakening, livro de 1955, e em artigos publicados na Harper’s e no New Stateman, Davidson comparava as condições de trabalho em Angola com as existentes no início do século e caracterizava a ocupação portuguesa como brutal, exploradora e racista.
17) Convém recordar a génese desta teoria hoje de novo em voga, mesmo entre democratas bem-intencionados. Gylberto Freire, seu autor, foi convidado pelo ditador Salazar para visitar as colónias portuguesas e, em vez de dar testemunho da realidade, construiu uma ficção: reinaria profunda harmonia racial e intensa miscigenação, duas coisas que realmente nunca existiram.
18) Marvin Harris, Portugal’s African Wards, Nova Iorque, 1958 e “Race, Conflict, and Reform in Mozambique”, in The Transformation of East Africa: Studies in Political Anthropology, eds. Stanley Diamond e F. G. Burke, Nova Iorque, 1966, ou “Raça, Conflito e Reforma em Moçambique”, Política Exterior Independente, Rio de Janeiro, I, 3, Janeiro de 1966.
19/20) Relatório de 1960.
21/22) Relatório de 1957.
23) Enganou-se: em 1977, os portugueses não só já não se aguentavam no Norte, como já tinham sido vencidos e Moçambique era independente havia dois anos. Mas enganou-se muito menos do que aqueles a quem insistentemente alertou.
24) Relatório de 1957.
25) Relatório de 1960.
26) Relatório de 1958.
27) Marvin Harris, Portugal’s African Wards, 1958.
28) Nelson Saraiva Bravo, “A cultura algodoeira na economia do Norte de Moçambique”, Revista de Estudos de Ciências Políticas e Sociais nº 66, Junta de Investigações do Ultramar, Lisboa, 1963.
29/30) Relatório de 1958.
31) Relatório de 1959.
32) Cujos estatutos, em inglês, anexou ao Relatório de 1959.
33) Relatório de 1959.
34) Não por acaso desencadeada nesse mesmo planalto dos Macondes, a 25 de Setembro de 1964.
35) Relatório de 1957.
36) Relatório de 1958.

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