Sem socialismo não há independência para o povo!

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Ana Barradas

Nenhuma independência nacional burguesa interessa ao proletariado e aos restantes trabalhadores explorados, a não ser que no processo se verifique a presença de indicadores sociais e políticos conducentes a transformações sociais de grande monta, favoráveis ao desencadear de uma crise revolucionária que leve ao derrube do regime.

O que aconteceu na Catalunha nestes últimos meses não tinha e não tem nenhum dos ingredientes favoráveis aos interesses do proletariado. Foi e tem sido desde sempre uma expressão do desejo da burguesia catalã de se libertar dos laços de dependência em relação a Madrid para se autonomizar e gerir em proveito próprio o seu sistema de exploração, impedindo assim a Espanha de parasitar proventos e poderes que considera seus.

Esta postura da oligarquia de Barcelona não é afinal senão a mesma que anima certos sectores da burguesia portuguesa que, sabendo que em termos económicos Espanha é a potência dominadora de Portugal, estão empenhados em obter condições favoráveis de associação. Embora em posições políticas diferentes face a Espanha, o objectivo das duas burguesias, a portuguesa e a catalã, é comum: ter acesso, com o mínimo de entraves possíveis, à rede de bancos e empresas capitalistas do espaço ibérico e da economia global para maximizar as suas taxas de lucro e continuar a transferir para os trabalhadores o ónus da austeridade.

Na Catalunha a conversa fiada do referendo e da independência nacional só tem servido para amarrar todo o povo a este desígnio nacionalista burguês. Lutar pela república, pela nação catalã e pela independência soa muito bem, até que se perceba quais as classes que beneficiam dessa evolução no actual contexto.

Sem direcção revolucionária, as massas estavam à partida condenadas à derrota. Os trabalhadores, não dispondo de um partido apostado no fim da exploração e na instauração de um regime de vontade popular, traídos pelo sindicalismo amarelo e mal tocados pela omissão dos marxistas de se ligarem a uma táctica estratégica proletária que actue no seio do povo pobre para o subtrair ao reformismo dominante, nada mais puderam fazer do que ceder à pressão reformista e seguir o movimento de apoio à sua burguesia independentista.

Era preciso que as forças realmente revolucionárias se destacassem dos seus próprios aliados reformistas e, em vez de perderam tempo com esses falsos amigos, ajudassem o proletariado a organizar a resistência decidida ao seu inimigo: a burguesia, seja ela madrilena ou catalã, seja ela dominante ou intermédia.

Nós aqui em Portugal estamos habilitados a posicionar-nos desta maneira porque na crise revolucionária de 1975 cometemos o mesmo tipo de erros, que deitaram a perder todas as possibilidades de romper com o sistema capitalista. É nossa responsabilidade reflectir autocriticamente a esse respeito e alertar para este perigo os nossos companheiros de outros países que não conheceram essa experiência tão rica em ensinamentos. Da mesma maneira que estamos também em posição de chamar a atenção para o facto de a restauração da independência de Portugal em 1640 não se ter feito por simples sublevação de palácio, mas sim por via armada, através de uma guerra difícil que nos levou 28 anos de grandes padecimentos e carências para o povo, sempre pronto a pegar em armas, até ser possível expulsar de vez o inimigo espanhol do nosso território e sermos de facto uma nação não oprimida.

Os revolucionários de hoje não podem deixar de fazer o balanço sobre as suas responsabilidades neste processo actual da Catalunha. Associaram-se com parceiros questionáveis e correram a apoiar a sobejamente reformista CUP “pela sua coerente linha política em defesa do povo trabalhador da Catalunha, concretizada na sua firme oposição a participar nos falsos consensos e políticas de conciliação promovidas pelo regime”, formando com ela e outros pequenos grupos uma frente interclassista que se acobertou debaixo das bandeiras cupistas, sem nenhuma demarcação de classe, sem nenhuma previsão de organização autónoma e de resistência à violência institucional, como se viu pelo que aconteceu no referendo e depois. Continuam agora amarrados a esta aliança, sem nenhuma demarcação, mesmo depois de a CUP, após o desaparecimento do timorato e inepto governo autonómico, vir a público afirmar que admite concorrer às eleições regionais marcadas pelo Governo espanhol. Viram-se agora os revolucionários para as recriminações ao governo central, que, como deveriam esperar se não estivessem animados de tantas ilusões, nada mais faz senão aquilo que tem de fazer, como poder democrático fascizante, representante dos interesses da classe que o suporta. E nem uma palavra de crítica conseguem ter contra o embuste em que os fez cair a burguesia catalã.

Tudo isto só pode fazer esmorecer as aspirações dos explorados, induzidos e enganados pelas forças políticas que contribuíram para os arrastar, como tropa de choque, nesta aventura desastrosa e colocá-las agora numa posição de desmoralização e expectativa. Neste momento, nenhum destes revolucionários é capaz de lançar as massas ao combate de classe e transformar a república catalã numa realidade. Saem desta aventura mais fracos do que quando embarcaram nela.

É fácil perceber por que razão é obrigatório criticar a táctica centrista que foi seguida. Pesem embora todas as proclamações indignadas de quem repetiu os erros clássicos das alianças interclassistas sem nenhuma capacidade de hegemonia na condução dos acontecimentos, ao proletariado e às massas exploradas só convém lutar por uma independência nacional que abra caminho a um processo revolucionário que aponte para a instauração de um sistema de produção socialista. E isso nunca poderá acontecer enquanto não for aplicada pelos comunistas uma linha táctica e estratégica que rompa radicalmente com a que tem sido teimosamente seguida, geradora da decomposição a que temos assistido desde há mais de 80 anos, com as consequências nefastas que agora estão bem à vista na Catalunha.

3/11/17

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